Era assim que acontecia:
Ele entrava no quarto, trancava a porta atrás de si e abria aquela porta do armário que tinha uma bandeira colada na parte de dentro – a bandeira que representava sua ilusão de que um dia ele teria um novo nome, uma nova pátria, uma nova realidade, um futuro diferente. Então ele procurava o saquinho alaranjado da “Discoteca 2001” no fundo da primeira gaveta, a gaveta de meias e cuecas, e dentro do saquinho estava a caixinha cinza com aquelas três lâminas de barbear (daquelas de usar em navalhas), embrulhadas em papéis de seda. Comprou a caixinha uma vez, nem se lembra quando, no caminho da parada de ônibus para sua casa; havia parado no supermercado para comprar miojo e, já na fila do caixa, viu as lâminas e comprou sem pensar, talvez sem nem saber para quê as usaria – na verdade sabia perfeitamente, mas talvez não estivesse totalmente consciente disso naquele momento. Ele pegava o embrulho que já estava aberto, retirava a lâmina de dentro dele e daí em diante variava muito, não era nada ritualístico. Às vezes chorava, outras gemia, em outras, ainda, comprimia os olhos e fazia aquele barulho de quem toma sopa fazendo um biquinho e sugando o líquido da colher; havia vezes também em que era totalmente frio e mecânico, fazendo a coisa sem mudar a expressão em seu rosto. Tanto fazia se era “across the road” ou “down the street”, nunca realmente acreditou que aquilo tivesse a ver com suicídio – isso é só mais uma daquelas mentiras que Hollywood conta tantas vezes que acabamos por acreditar serem reais. Quando estava sozinho em casa, costumava encher um balde de água e mergulhar o braço lá dentro depois de cortado só pra ver o sangue dançar. Água fria ou quente, tentou os dois só pra ver se havia alguma variação nas formas que o sangue fazia ao sair do corpo, com qual das duas a dor era maior, isso não importava. Mas, pouco a pouco, pareceu que aquilo virara um vício. Quando um copo de vidro quebrou, viu entre os cacos um formato pontiagudo que podia ser um instrumento favorável a seu novo hobby. Algumas vezes se esquecia da dor e começava a entalhar seus tecidos um a um para conhecer seu corpo por dentro como se ele mesmo fosse uma rã de laboratório a ser dissecada. Uma vez até foi esbanjador e encheu a banheira da suíte de seus pais, entrou de roupa e tudo, e começou a tingir a água de vermelho, pouco a pouco. Ao final pareceu algo engraçado, como uma cena das propagandas da Campari – um homem de casaco azul na banheira de líquido vermelho, o sonho de um alcoólatra tomando banho numa banheira cheia de sua bebida favorita (mas quem já tomou Campari alguma vez sabe que, dificilmente, aquilo é a bebida favorita de quem quer que seja).
Quando o amor morreu, surgiu o amor pelo morto. E para mostrar ao morto seu amor, amava também a morte. E a auto-flagelação era, além de tudo, um poema de amor que dizia “eu sei a dor que você sente”.
Mas um dia percebeu que seu amor era um amor canalha. De quem diz que vai se separar da esposa pra ficar com a amante mas nunca faz isso, e também não tem coragem de abandonar a amante. No fim escolheu os anos de companhia (infeliz, é verdade) da esposa à incerteza de como seria viver (se é que havia alguma vida) com a amante.
Os cortes pararam, as marcas cicatrizaram e eternizaram em seu corpo a memória daquela época.
Se essa história tivesse acontecido hoje teria sido estigmatizado. Porque hoje em dia é moda ser assim, e quem o é por uma força que vem de dentro acaba sendo julgado de fazê-lo por modismo.
Os cortes pararam, mas a auto-flagelação não.
sábado, 31 de maio de 2008
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3 comentários:
Thiago, você já jogou F22?
Responde aqui.
F22?
acho que não
"Quando o amor morreu, surgiu o amor pelo morto. E para mostrar ao morto seu amor, amava também a morte. E a auto-flagelação era, além de tudo, um poema de amor que dizia “eu sei a dor que você sente”.
Fantástico isso...
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