Não preciso descrever a sociedade. Todos sabem como é. Todos vivem nela e a vêem, ninguém entende, ninguém gosta, mas todo mundo faz parte dela de uma maneira ou outra.
Figuras de insurgência são os que cansam de ficar de braços cruzados e resolvem realmente fazer alguma coisa. Demonizados e excluídos, ora desistem da luta, ora enlouquecem (ou encontram uma realidade que o mundo não consegue ver).
O chamado "monstro social" teve um momento de revelação um dia antes do seu aniversário de 17 anos enquanto comia pão (sem manteiga nem nada, puro mesmo) numa esquina da cidade às 16h44. Alguns dizem que baixou-lhe uma luz, outros falavam de um corvo negro, mas a grande maioria dizia que o próprio demônio possuiu-lhe naquele momento em que ele largou o pão no chão, olhou chocado para o nada e murmurou: "Quem sou eu? Eu não sei quem sou. Eu não me acho dentro de mim."
E na tentativa de se encontrar, em pranto derrubou os muros, despiu-se das armaduras (inclusive do elmo), rasgou as roupas, retirou a máscara, lavou os cosméticos fora, arrancou os cabelos todos e - embora estivesse totalmente nu naquela esquina, achou que ainda não havia se encontrado - então cravou as unhas grandes atrás das orelhas e arrancou fora a própria face. As coberturas eram tantas que ele não pôde definir onde acabava a falsidade social e começava seu verdadeiro eu. Acabou jogando-se fora. E envergonhado fugiu enquanto os que reparavam sua nudez gritavam "Depravado!" e os que viam sua cara sem rosto esbravejavam "Monstro!"
E um Monstro ele se tornou ao tentar forçar o mundo a compreender a visão que tinha tido. Andava pelos becos à espreita dos traseuntes. Sempre atacava ao fim da tarde, justo no horário em que as pessoas vão do trabalho para casa para ver a novela. Aparecia do nada e cravava suas enormes garras no peito das vítimas, retirando-lhe todas as couraças. Ao fim do ataque, a pessoa ficava com o peito aberto, costelas quebradas inutilmente tentando esconder o coração. Com o cheio metálico de um sincero sangue tomando a atmosfera a pessoa chorava - não de dor, mas da vergonha de estar internamente exposta - e quem passava e via aquele coração despido levantava o dedo acusador e atirava pedras. Dos poucos que sobreviveram a isso, uns preferiam nunca ter visto a realidade de maneira tão crua, outros se tornavam novos Monstros Sociais mesmo sabendo que nunca, nunca venceriam.
2 comentários:
bateu lá no fundo.
vc escreve q nem um filho da puta lindo!
amo. =*
só p dizer q eu li
e vire e mexe eu passo aqui p saber se vc atualizou
e nada...
=p
atualize, gato
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